segunda-feira, 31 de maio de 2010

Criação

Cria-se,
vai-se criando,
é criada.
Aquela música é criada,
aquele poema é criado.

Cria-se,
vai-se criando,
é criada,
é criação.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Singularidade

Caminha, sozinha, com passos decididos, naquele chão desigual.
Tenta parecer decidida, mas as suas decisões são sempre erráticas.

O cabelo escuro, de dois tons,
vai solto nos dias frios e quando ela quer;
vai apanhado nos dias quentes e quando ela quer.
A pele de alabastro está agora descoberta.

Não gosta do que vê no espelho na maior parte das vezes,
é raro achar que algo está bem.

Não se identifica com a maior parte das coisas,
não entende o mundo nem as pessoas.

Parece estar sempre a tentar provar algo a alguém,
como é diferente.

Sente-se (e sabe que) na maior parte do tempo está sozinha
e às vezes não sabe onde encontrar apoio.

Acha que as coisas mudaram,
mas talvez tenha sido ela quem mudou.
Ainda não sabe bem.

Pergunta-se como será que a vêem
e se realmente a vêem.

A expressão usual é a de testa enrugada e olhos ligeiramente cerrados.
Não sabe se a favorece, mas é a expressão que se lembra de sempre ter.

Caminha, sozinha, com passos decididos naquele chão desigual,
as mãos tocam o cabelo porque não têm mais o que agarrar.
E ela nem se dá conta do que está a fazer.
Nem se apercebe para onde vai.

Silêncio tranquilo


Sob aquele sol abrasador,
encontro-me na sombra reservada.

Os olhos semicerrados pela luz,
o corpo a destilar de alívio.

O asfalto mexe-se sozinho
e não há mais ninguém para o observar.

O silêncio é tranquilo
mas ao fundo ainda se ouve falar.

Está na hora de voltar.


("It's oh so quiet")

domingo, 11 de abril de 2010

Lembra-te de Mim


Dilacerado estás,
por dentro e por fora.

No teu caderno velho, dobrado e amarrotado,
lhe vais escrevendo, falando.
Tens saudades, mas não dizes a ninguém.

Nela e nos seus ímpares olhos azuis,
encontraste um apoio,
algum equilíbrio.

Quando tudo parece tomar um rumo,
partes, inevitavelmente,
e só pedes: "Lembra-te de mim".


(poema inspirado no filme Remember Me).

segunda-feira, 22 de março de 2010

Passos


Gosto de ouvir os passos sobre as lages,
gosto de ouvir os passos sobre as folhas,
gosto de ouvir os passos sobre o soalho,
gosto de ouvir os passos sobre o cascalho.

Gosto de ouvir os passos silenciosos,
gosto de ouvir os passos misteriosos,
gosto de ouvir os passos conhecidos e desconhecidos,
gosto de ouvir os passos escondidos.

Gosto de ouvir os passos e adivinhar de quem são,
gosto de ouvir os passos que pisam o chão.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Jarra

O suspiro cansado sai da minha boca.
Entro na sala para mais uma hora...
As mesas estão diferentes,
não há luz que entre,
vemo-nos todos uns aos outros.

O cheiro a campo, a flores,
faz-me ter saudades da liberdade,
do sol que queima,
da sombra que refresca,
da água que molha e aquece,
dos rostos diferentes que são iguais.

Com os olhos naquela jarra de flores,
sinto saudades daquela liberdade esquecida.


(Por esta altura já devia ter. Ainda não tenho.)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Promessa


Eu tinha prometido.
Tinha prometido e em parte, cumprido.

Mas ao ver-te naquela noite de luzes,
nesse porte altivo,
nessas roupas que tão bem te ficam,
mais bonito que nunca,
a minha fraqueza cedeu.

Eu tinha prometido.
Tinha prometido e em parte, cumprido.
A minha fraqueza cedeu.
A barreira caiu. Outra vez.


(in just one week)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Capítulo


Foi perda de tempo,
de energia,
de palavras,
de pensamentos.

Ainda não tinha percebido,
na minha ingénua ingenuidade,
ridícula ingenuidade,
ou algo que não sei como se chama...

Encerro hoje,
de vez,
este capítulo.
("Were you just kidding? 'Cause it seems to me.")

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O pinheiro de longas e afiadas agulhas verdes


Depois da chuva miúda que caiu,
o sol, já nada ténue, rasga o céu,
pinta de mais claro as paredes brancas,
entra nas casas pelas janelas transparentes.

As nuvens brancas,
da cor das paredes,
encaixam-se no céu claro.

No pinheiro, de longas e afiadas agulhas verdes,
o vestígio escasso da chuva,
brilha com os raios de sol,
contrasta com o tom chocolate das pinhas.
Espreito da minha mesa,
o pinheiro verde brilhante,
que mesmo simples,
é deslumbrante.

O pinheiro verde de longas e afiadas agulhas


Depois da chuva miúda que caiu,
o sol rasgou o céu, mas agora desapareceu,
as paredes brancas ganham suaves sombras,
sai das casas pelas janelas transparentes.

As nuvens escuras,
tapam o céu,
raramente o deixam espreitar.

No pinheiro verde de longas e afiadas agulhas,
o vestígio escasso da chuva, secou,
contrasta com o tom chocolate das pinhas.

Espreito da minha mesa,
o pinheiro verde,
que passou a ser igual aos outros,
mas mesmo assim, deslumbrante.


("As coisas mais simples são as mais belas")

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O sorriso, a agitação


O sorriso, a agitação,
invadem a minha face,
o olhar ilumina-se, com o brilho na íris escura,
o tom rosado das maçãs do rosto, refresca a alma aquecida.

O sorriso, a agitação,
formam-se naturalmente,
fazem o ar cheirar melhor,
a flores, a Primavera,
fazem o sol ficar,
fazem os passos serem música,
fazem os sabores serem saborosos,
fazem o toque ser macio.

O sorriso, a agitação,
fazem o corpo e alma serem felizes,
fazem o Mundo mais bonito.

(esta flor, chamada Copo-de-Leite, significa Felicidade e Pureza)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Voz, letras apagadas


Muito se ouve, mas pouco se retém,
pouco se fala, mas muito se espera ouvir.

O tempo vai passando,
as nuvens correndo,
o sol aparecendo,
a noite voando.

E as palavras...
Continuo à espera do som dessa voz,
das letras apagadas.
(logotipo da Dreamworks)

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Imersão


Imersão.
O corpo mergulhado na água, mergulhada na espuma, mergulhada na água.

Os ouvidos tapados, que só ouvem o borbulhar da espuma,
as mãos independentes, que se agitam na água, ondulando-a,
o nariz que absorve o vapor,
os olhos que se fecham e aspiram tranquilidade.

Submersão.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Frio, chuva, neve


O corpo encolhe-se,
os rostos arrefecem,
as almas aquecem,
os dias passam.

O frio, a chuva, a neve,
alternados e simultâneos,
envolvem o ar e a água.

As noites reaquecidas,
passam depressa e devagar.
Os dias suaves passam sem se dar conta.

Frio, chuva, neve.
(Imagem: “flores” de sal cristalizado que cobrem a superfície do Mar Branco na Rússia)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Episódio


Foi tão natural, tão simples, tão incrivelmente diferente.

Os risos nunca forçados que jorravam das nossas bocas,
as palavras nunca superficiais, ora ditas seriamente, ora sorrindo,
nunca eram más.

Da cumplicidade reatada e revivida,
da cumplicidade esbatida,
põe-se a questão de ter sido ilusão no lugar da oposta realidade.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Palavras. Ou a falta delas.


Nesta noite que tão a leste está de mim,
as tuas palavras ora doces, ora indiferentes,
não são para mim.

E eu que aguentei um dia tão cheio e tão vazio,
esperei para ouvi-las,
mas não ouço.
Elas não são para mim.
Não são para mim e talvez não sejam para mais ninguém.

Estás tão longe,
indiferentemente distante.

Tento as palavras certas para ouvir algo certo, errado ou nada disso.
Não importa, basta que digas alguma coisa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Utopia(?)


O sol brilha, quente, no céu tão limpo, azul-claro.
O frio do dia mais frio, gela-me a cara, as mãos que estão fora dos bolsos.
Os meus passos são vacilantes neste chão incerto e as minhas pernas cortam o ar pesado e leve.

A minha cabeça nunca pára,
sempre de um lado para o outro
e a lembrança de palavras trocadas, assoma à minha mente.

Não sei defini-lo, é muito diferente do que já estou habituada.
Ou talvez seja eu quem quer que assim seja.

Mil perguntas que não tenho coragem te de fazer, percorrem a minha alma,
censurando-me pela minha cobardia,
ou pela minha prudência, não sei bem.

Tudo o que sei é que te sinto distante,
e os meus dedos pálidos tentam alcançar-te.
Mas a cada passo nosso, a distância entre nós aumenta, abrindo-se num abismo abismal,
que nem tu nem eu conseguimos atravessar.
E pergunto-me se os teus passos não serão utopia minha.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Memória


Havia tanto barulho, tanta agitação naquele passeio estreito,
com as pedras brancas da calçada a espreitar,
de olhos curiosos postos em nós.

Essa tua cara agastada,
o tom único da tua pele,
mostram o que eu já sei.

As tuas feições estão marcadas
pelo pó do tempo,
pelas consequências que não soubeste medir
e que te escuressem o rosto.

Mas os teus olhos escuros,
esses são os mesmos,
com o mesmo brilho que sempre lhes conheci
e do qual gostei como ninguém.

Olhá-lo outra vez,
foi ver tudo o que aconteceu há tanto tempo, mas que nunca esqueci.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Lua Cheia


Já está frio demais para estar fora de casa,
mas ainda o sinto cortante, na cara, nas mãos.

A luz já é fraca
e provém das poucas salas ainda a uso.
A escuridão abate-se sem ser preciso encará-la, o que, no entanto, faço.
Uma estrela tímida descobre-se no meio daquele barulho de que me abstenho.
Olho para todos os lados mas não vejo mais nenhuma, e aquela é tão bonita, tão brilhante...

Procuro então pelo mais importante: a Lua.
Tão perfeita e luminosa, Cheia,
querendo destacar-se naquele céu que quer ser escuro, mas ainda não é.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Bolhas de sabão


Olho para a caixinha, e logo me lembro:
recordações da pequena mãozinha que a segurava,
e a pequena boca que soprava.

Por magia, via as bolhas de sabão flutuar,
umas preferiam o chão,
outras as alturas.

Coloridas, de mil reflexos,
rebentavam divertidas,
uma a uma.

E agora, fazem o mesmo,
umas preferem o chão,
e outras as alturas.

Coloridas, de mil reflexos,
rebentam divertidas,
uma a uma.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Flor invernil


O sorriso que agora trago,
é como uma flor que decidiu florescer no Inverno,
depois de uma apatia imensa, pelo sol, pela água.

As coisas mudaram,
mas verdadeiramente nada mudou,
nada é novo.
Acho que fui eu que mudei.

As razões são desconhecidas,
ou talvez difíceis de mostrar.

É como uma flor que decidiu florescer no Inverno.


(esta foto tem direitos de autor: Christina Ramos "Chris" em http://exposicaoaberta.blogspot.com/)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Branca de Neve


"Lábios vermelhos como uma rosa,
cabelo negro como o ébano
e pele branca como a neve.
Ela é a mais bela".

Memória de princesa preferida,
de músicas esquecidas,
gestos escondidos.
Nostalgia permitida.

As caras doces,
os olhares gentis,
trazem a alegria passada
e o medo tonto de criança.

A perfeição da inocência
e a inocência da perfeição,
ali, numa história de crianças.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Estado


O caminho de pedras de calçada
branco sujo,
com a grade, os arbustos de folhas grandes de um lado,
o vazio, o barulho, as máquinas mortas do outro,
dizem-me que tenho de ir.

Quero voltar para trás, mas as pernas avançam maquinalmente,
como se alguém lhes tivesse dado corda
num segundo de distracção.

O vento, gentilmente, refresca a minha cara, gelando-a.
Ergo a cabeça para o céu, num suspiro conformado
e vejo-o cinzento.
Um cinzento escuro, muito escuro,
terrivelmente escuro, quase tão escuro como carvão,
onde as nuvens movem os corpos indefiníveis, rapidamente,
numa sensação de desânimo permanente.

Ora desabafam chorando grossos pingos de chuva que caem furiosos no asfalto culpado,
ora disfarçam o choro com a chuva que mal se sente,
que cai surdamente nas folhas caídas, secas, por estalar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Desabafo




Desvaneceu-se sem me ter apercebido.

Era uma amizade disfuncional,
mas era amizade.
Agora, olhas para mim como se fosse uma estranha,
e é o que acabo por ser,
tal como tu acabaste por sê-lo para mim.
Mas já não há retorno, manternos-emos assim.

Talvez a culpa tenha sido minha, talvez,
mas pura e simplesmente não podia aguentar mais.

Lamento.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Estilhaços de uma noite


Destruído, estilhaçado, dilacerado...
Tudo acabou...

Num segundo, aquilo que era perfeito,
a única coisa que me fazia suportar tudo e todos,
saltou com força das minhas mãos escorregadias,
caindo, inevitavelmente, no chão duro de pedras negras, que se riem de mim,
que troçam da minha ingenuidade,
estilhaçando-se em mil pedaços.

Caio sobre aquela destruição,
que me destrói lentamente o corpo e a alma.
As lágrimas escorrem pela minha cara,
terminando no todo que agora está dilacerado,
fazendo eco, um eco sem som, que ecoa na minha cabeça,
tombando-a no chão.

As minhas mãos sem vida procuram
os pedaços do que está acabado para sempre.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Ensaio


A vida vai passando pelos meus olhos,
pelo meu corpo,
pela minha alma.

A cada segundo,
a minha maneira de olhar o mundo,
o meu corpo, a minha alma,
mudam.

E talvez não seja uma boa mudança,
ou talvez seja.
Não sei e acho que ninguém sabe.

E sinto que sou a única,
e não sou...
Bem, realmente não sei.


(originalmente escrito em Inglês)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

?


A vida é um eterno ponto de interrogação.
Tudo é pergunta,
mas nem tudo é resposta.

Queria acabar com as perguntas,
os pontos de interrogação,
e pôr um ponto final.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ilusão


Estúpida ilusão.
Como pude?
Estúpida ilusão.
Evitá-la foi tão impossível,
agora é inevitavelmente frustrante.

A estúpida ilusão que me perseguiu
naquela memória que quero apagar,
daqueles olhos tão hipnóticos
que me olharam tão fixamente,
obrigando-me a desviar os meus.

Já esqueci tudo isso,
aquele olhar intenso...
Ou pelo menos tento.

domingo, 18 de outubro de 2009

Aqueles olhos

Aqueles olhos azuis esverdeados,
aqueles olhos verdes azulados,
que tão bem me prenderam,
naquele momento tão hipnótico.

Aqueles olhos
que me vêem ao pensamento
a todo o instante
e não me deixam esquecê-los.

Aqueles olhos azuis esverdeados,
verdes azulados,
que nem consigo definir,
mas não consigo esquecer.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Saudades


Saudades de muitas coisas
que significavam pouco
e agora significam muito,
saudades de poucas coisas
que significavam muito
e agora significam pouco.

Saudades das manhãs passadas,
em que voltava a ser criança.

Saudades das tardes,
partilhadas com uns e outros.

Saudades das noites esvoaçantes,
que não voltam.

Tudo se foi,
tudo o tempo, o vento levou.
Talvez volte ou não.
Talvez venha algo.
Quiçá.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Não sei


A torrente soltou-se dos meus olhos de água,
sentida como há muito não era,
deixou aquele sabor amargo na boca angustiada,
no rosto toldado,
na alma contorcida.

Os cabelos molhados tapavam-me a face que sofria, encharcada,
ao som do coração desenfreado.

Não digo que sei,
preferindo acreditar e fingir que não sei.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Oca


Desprovida de sentimentos,
desprovida de emoções,
desprovida de palavras,
desprovida de pensamentos.

Oca.
Vazia.
Oca.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sufoco


Peço a Deus ou a alguém,
que faça o tempo andar mais depressa,
para poder sair deste sufoco.
Mas de cada vez que olho para os ponteiros do relógio,
passaram, no máximo, cinco minutos.

A vontade de sair dali,
daquela sala que parece sufocar-me,
parece querer sufocar-me ainda mais.

Mas, tudo, tudo acaba.

Renovações


Grandes renovações vêm aí,
sinto-o.
Sinto-o a cada golfada de ar que inspiro,
a cada pedaço de chão que piso.

Muitas coisas parecem querer mudar.
Nada versáteis, parecem não se ter adaptado a mim e à minha vida.
Parecem querer mudar por tempo limitado...
Ou ilimitado, não sei.

Grandes renovações vêm aí,
sinto-o.
Sinto-o a cada palavra proferida,
a cada segundo trespassado.

Grandes renovações vem aí,
sinto-o.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Coisas


Coisas complexas,
desconexas,
incompreensíveis,
irredutíveis.

Parece que tudo é assim,
coisas demasiado intensas,
demasiado angustiantes,
demasiado complicadas.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Alice


A Alice do País das Maravilhas
adormeceu e teve o sonho da sua vida,
como se toda a sua existência se tivesse passado ali, no País das Maravilhas,
onde tudo acontece.

Inocente criança que cai na toca do coelho.
E então, tudo muda.

O País das Maravilhas, irreal,
onde tudo acontece,
onde a noção se perde.
(obrigada ao Jorge, mais uma vez)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Desânimo


Senti o desânimo invadir-me,
atacar-me com toda a força,
sem me dar tempo de o impedir.

Fui para mais perto da rua,
olhei o céu negro da noite,
em busca do consolo das estrelas,
mas nem isso tive.

Fechei os olhos num instante
e senti o vento trespassar tudo.

Só preciso de ouvir o vento
para saber que tudo ficará bem.

sábado, 29 de agosto de 2009

É real?


Na habitual conversa,
ele mostrou-me aquela fotografia,
de que ele tanto tinha gostado,
partilhando-a comigo.

Olhei-a atentamente,
aquela aura mágica enfeitiçou-me imediatamente,
como se do pó da varinha de condão de uma fada se tratasse.

Aquele imenso verde
que habita naquelas paredes,
naquele chão,
aquelas flores...

É real?


(ao Jorge, mais uma vez obrigada por me dar a oportunidade de escrever sobre estas maravilhas. Dedicado a ele)

Rosa


A Rosa no jardim
de terra seca
e poucas plantas,
é vermelha cor de sangue.

A Rosa chora,
caída, murcha,
sozinha, abandonada,
triste, inconsolável.

A Rosa clama,
por alguém que lhe dê vida,
que a chame de "perfeita",
que lhe chegue ao coração.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O cair da noite

O sol já vai ao encontro do horizonte,
mas a noite ainda nem caiu.
A lua já se acomodou,
já está sentada no céu azul claro.

As estrelas ainda se estão a arranjar,
ainda não chegou a sua hora,
ainda não chegou a hora do espectáculo,
a hora de iluminar o céu com a lua.

Ainda não chegou a hora
que chega docemente.

domingo, 23 de agosto de 2009

Pedaços de chão


Naquela água tão límpida,
onde lhe vejo o fundo,
ajoelho-me no chão
e mergulho as mãos na areia.

Com as mãos em concha,
agarro um pedaço de chão
e observo as pequenas pedrinhas,
tão pequenas e brilhantes.

Atiro-as dentro de água
e vejo-as pairar, por pouco tempo,
até caírem nas minhas mãos,
ou no fundo.

Pedaços de vida e de tempo.
Pedaços de chão.

sábado, 22 de agosto de 2009

Flor de Lótus


Tão simples,
a Flor de Lótus mora nos lagos,
junto dos nenúfares,
junto dos peixes.

Poucos reparam nela,
e isso fá-la chorar pétalas de desgosto.
Os peixes tentam consolá-la, saltando no lago,
os nenúfares choram com ela lágrimas de orvalho.

A Flor de Lótus mora nos lagos,
junto dos nenúfares,
junto dos peixes,
chora pétalas de desgosto.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Flor de Algodão


A Flor de Algodão,
tão frágil, tão delicada,
parece querer tocar no céu quando é agitada pelo vento.

A Flor de Algodão,
tão macia, tão suave,
parece querer dizer para a apanharem.

A Flor de Algodão,
tão valiosa, tão intocável,
parece querer mostrar a sua preciosidade.

Céu


Sempre sereno e tranquilo, de azul,
sempre aborrecido e enfadado, de cinzento,
sempre majestoso e imponente, de negro.

Tão acima de nós,
tão desconhecido,
tão (in)alcançável,
tão pretendido.

Um pedaço de Céu.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Tempo


O Tempo como o Vento urge à minha frente,
corre, corre e não me deixa acompanhá-lo,
corre, corre sem dó nem piedade.

O Tempo como o Vento urge à minha frente,
corre, corre e deixa-me cansada,
corre, corre e envelhece-me a cada dia que passa.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Gato

O Gato sentado no parapeito da janela,
de pêlo negro e olhos amarelos
concentra a sua atenção em algo que não se vê.

O Gato sentado à janela,
de pêlo escuro e olhos dourados
só presta atenção a algo que não se vê.

Rosa de Prata

A Rosa de Prata tão bela e perfeita,
no jardim de ouro e mármore,
tão frágil e imponente,
tão brilhante e reluzente.

A Rosa de Prata é a única rosa
do jardim dourado e marmóreo
onde os Zéfiros se passeiam
e as Deusas e Ninfas beijam o chão.

A Rosa de Prata está presa ao jardim
preso na perfeição.

sábado, 15 de agosto de 2009

Rio

A água cantando
pelas pedras grandes e pequenas,
rodeada pela vegetação.

O caminho é íngreme,
areia e pedras quase me fizeram cair,
mas nada chegou para me impedir.

Não me importava de ficar aqui para sempre.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Memórias


Passo por aquela paisagem tão simples,
aqueles sobreiros tão gastos pela idade
mas com tanto pela frente...
Logo me lembro daqueles momentos.

Aquele riso tão próprio,
tão desprovido de coisas más.
As partilhas que provam a amizade.
A cumplicidade eterna.
Tudo tão genuíno.


(em grande parte, à Genésia)

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Desencontros

Caminhamos em estradas estreitas, paralelas.
Ris bem alto e nem me vês,
nem vês que te bebo os passos.
Não olho sequer para a minha estrada.

Continuas tão seguro de ti,
sem medo algum do caminho que percorres.

Pela primeira vez ponho os olhos no meu,
não consigo ver-lhe o fim,
apenas a linha ténue do horizonte.
Os nossos caminhos nunca se cruzam.


(à Filipa, por ser o preferido dela)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Gruta


Virando a esquina da rocha,
vejo o espaço que o mar ainda não engoliu.

Aquele espaço tão cheio de tudo e tão cheio de nada,
cheio de magia e de areia e pedra.

A abertura que a rocha deixou formar
permite que uma réstia de sol entre.

O mar avança levemente na sua direcção
chamando-a pelo nome.
(ao Gordo, meu admirador, o primeiro a lê-lo)

sábado, 8 de agosto de 2009

Paraíso


Paraíso dos paraísos,
a água que reflecte o céu,
lugar mágico e inigualável.

Magnífico pela sua simplicidade,
paraíso dos paraísos.


(obrigada ao Jorge por me ter mostrado os lindíssimos vídeos da extraordinária Bolívia, que me inspiraram para este poema. Por isso, dedico-lho)

O Céu sai à rua

O Céu sai à rua.
No seu vestido azul-claro de seda
passeia-se no meio dos outros,
confundindo-se com eles,
com um brilho que mais ninguém vê.

O Céu sai à rua.
No seu vestido azul-escuro negro de seda
passeia-se no meio dos outros,
confundindo-se com eles,
deixando que o brilho se perca.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Necessidade

Necessidade intemporal,
sentimento eterno,
de mudança, algo novo
que faça diferença,
que faça viver com emoção.

Necessidade eterna,
sentimento intemporal.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Luar


O céu negro junta-se ao mar,
invisível, audível,
que faz desembocar suaves ondas
na também escura areia.

A luz brilhante, clara, incandescente,
faz-se reflectir no mar negro da noite,
trilhando um caminho até ao céu.
"Quando for grande andarei sobre o mar".

sábado, 25 de julho de 2009

Mar


A água com o seu travo salgado
desemboca em pequenas ondas espumosas,
com areia à mistura.

Ocasionalmente vê-se um peixe ou outro.
A água é transparente,
vê-se a areia dançar debaixo de nós.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Primeira praia


O vento apressado agita os cabelos,
faz o mar desdobrar-se em ondas irritadas,
as gaivotas protestam sobrevoando a praia.

Pedaços de conchas, pedras e búzios
amontoam-se na areia macia e cortante.

Pessoas passeiam-se calmamente,
entrando e saindo,
apresentando-se e despedindo-se.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Rio


As águas calmas,
serpenteiam no meu corpo,
águas límpidas,
que indiscretamente deixam as pedras espreitar
por entre os meus pés.

Avisto ao longe a mancha verde,
de eucaliptos e pinheiros,
respiro fundo e sinto a tranquilidade percorrer o meu espírito.

Sinto-me livre.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Noite

A noite de Verão
vai clara ainda,
sem lua, sem estrelas,
toma o lugar do dia.

Desce do céu até à terra,
despede-se do sol e das nuvens,
chama morosamente as companheiras.

A noite de Verão
sibila segredos,
faz promessas,
adormece todos.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Deserto


O calor abrasa-me a pele,
a boca ressequida implora por água,
os pés parecem pisar chamas.

Não sei o que faço ali,
não sei o que me levou lá,
sei apenas que as pernas caminham altivas
em busca de algo.

Não consigo parar,
as pernas não deixam.

"Só pararás quando encontrares...",
ouço na minha cabeça.
Mas eu não sei o que é,
nem encontro.

A busca é infinita.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pôr-do-sol/Amanhecer



Levanto os olhos do chão
e ponho-os no céu.
É o fim do dia,
o fim de mais um dia.

O sol desce lentamente,
para se encontrar com o mar,
para se encontrar com a terra.
Desce lentamente.

O céu é colorido de tons indefiníveis,
tons de rosa,
tons de laranja.

É o cair da noite,
é o pôr-do-sol.



Amanhecer
Abro os olhos, pestanejo com a claridade
e ponho-os no céu.
É o início do dia,
o início de mais um dia.
O sol sobe lentamente,
para se encontrar com as nuvens,
para se encontrar com o horizonte.
Sobe lentamente.
O céu é preenchido de luz,
raios de sol,
que quase me cegam.
É o nascer do dia,
é o amanhecer.